LEGADO?

“Sê útil. Deixa rasto.”

O QUÊ nós somos? O que restará de nós? Deixaremos algo para este mundo?

Não sei se você já fez alguma dessas perguntas, se já pensou em legado, se já quis deixar alguma marca no mundo.

Eu já.

Eu sempre falei muito sobre legado, mais um legado familiar do que pessoal. Eu sempre quis perpetuar o nome da minha família na história. Por quê? Não faço a menor ideia, mas sempre tive isso incutido na minha cabeça.

Dentre muitos dos debates filosóficos que tenho com meu marido, ele sempre tentou desentranhar essa minha obsessão abstrata por legado. Segundo ele, nada dura para sempre: nem empresa, nem nome, nem fortuna, nem nada… se tudo que construímos aqui pode ser desmanchado em um piscar de olhos, logo, não existe legado.

Apesar de o pensamento dele ser muito coerente e sábio, eu não queria aceitar que perdi esse debate e precisava arrumar uma defesa pro tal do legado (casou com uma advogada, coitado).

Dentre meus estudos bíblicos, doutrinários, filosóficos, antropológicos eu sempre me deparei com a necessidade humana da transcendência. “Taí, o legado que eu tanto procurava”, pensei eu.

(Quando falo em transcendência aqui, não me refiro a algo místico ou inalcançável, mas à necessidade humana de ir além de si mesmo: de dar sentido à própria existência, de conectar a vida a algo maior, que sobreviva ao tempo e à finitude individual)

Mas não, apesar de estar no caminho, transcender ainda não era a solução ideal para a minha busca pelo legado.

Dia desses, indo para casa, eu estava admirando a “Casa Rosada” – é um velho casarão em um bairro nobre de Goiânia, que eu, desde muito novinha, sempre sonhei morar e fantasiava viver mil aventuras de princesa lá –, e me peguei observando uma pintura de São José e o Menino Jesus em azulejos portugueses.

Parei para pensar em toda riqueza que há dentro daquela casa, desde as pinturas, até o sino que decora o jardim (dizem que o tal do sino pertenceu à primeira Igreja Católica de Portugal)… pensei em todo o cuidado e zelo que o casal despendeu durantes anos para fazer daquele lugar o seu lar…

Eles não tiveram filhos. A casa, certamente, ruirá e dará lugar a construções mais modernas e úteis. Logo, a pintura em azulejos azuis estará no chão.

Eu não conheci o dono da casa, não convivi com ele, e se eu o conhecesse sem conviver, ele seria só o “dono da Casa Rosada”.

Quem o conheceu e conviveu com ele não o tem apenas como o “dono da Casa Rosada”. Certamente o tiveram como o marido, o tio, o fundador da loja de tecidos, o empresário, o patrão, o amigo, o piadista, o gentil…

Então se a casa, a loja e até mesmo a família não são o tal legado, o que é então?

A Liturgia desse mesmo dia me deu a resposta: seu legado não será aquilo que você teve, ou construiu, ou acumulou. Seu legado será aquilo que você ofereceu.

Em Lucas 2, 22–40, Jesus é apresentado no Templo antes mesmo de poder escolher. Ele foi oferecido. Não como posse, mas como entrega a Deus.

E essa lógica não muda com o tempo. O mesmo Jesus que foi oferecido no colo de Maria, mais tarde oferece a si mesmo. Já adulto, consciente e livre, entrega a própria vida. Não constrói casas rosadas, não acumula bens. Ele oferece o que tem de mais valioso: sua vida.

Seu legado, portanto, não é um nome preservado na história, nem uma empresa, nem uma grande fortuna. O legado de Jesus é a Vida.

E assim eu entendi o que é deixar um legado.

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