
Vocês já ouviram falar que “saudade” só existe no português brasileiro?
Porque “saudade” não é só sentir falta de algo ou de alguém, a saudade abarca tantas emoções e sentimentos.
São várias palavras e emoções em uma só.
Existe: saudade de alguém, saudade de um tempo, saudade de si, e tantas outras espécies de saudade.
Percebe que não é só sentir falta? Não é só FALTA de algo ou alguém.
Há ali um desejo de ter novamente, de reviver.
Percebe que é ansiar por aquilo que passou, que já foi… mas, ao mesmo tempo, está permanente em você?
Você já parou para SENTIR a saudade?
É possível sentir o cheiro, o gosto, o toque, ouvir o som… ela nos possibilita reviver aquilo que já passou, já foi.
Vai me dizer que se você parar para SENTIR a saudade, não vai sentir o cheiro daquela pessoa amada que já se foi. Ou o cheiro daquele bolo. Daquela casa. Daquele cangote.
Vai me dizer que se você parar para SENTIR a saudade, não vai conseguir sentir aquele abraço. A textura do cabelo. O toque e o calor daquela pele.
Vai me dizer que se você parar para SENTIR a saudade, não vai sentir novamente todas as sensações e emoções daquele momento. O frio na barriga. A garganta arranhar.
Percebe?
A saudade é de algo ou alguém que já se foi, mas ela só existe porque aquilo ainda permanece dentro de nós, na forma de memória, afeto, marca emocional e significado.
Não conseguimos sentir “saudade daquilo que ainda nem vivemos”, parafraseando nosso querido Menino Ney. Justamente porque a saudade é SENTIDA, não imaginada.
A saudade não nasce da imaginação, mas da memória.
A imaginação pode criar imagens, cenários e possibilidades do que poderia acontecer; ela projeta o que ainda não existe.
A memória, por outro lado, conserva aquilo que já foi vivido e guarda as experiências que marcaram a nossa vida.
A saudade surge justamente quando a memória traz de volta algo que já experimentamos, e que já não está mais presente.
Por isso ela é sentida, porque aquilo que lembramos não é apenas uma ideia ou uma hipótese, mas algo que faz parte de nós.
E olha que lindo isso… “FAZ PARTE DE NÓS”. No presente.
Tudo aquilo que vivemos no passado faz parte de quem somos hoje. As experiências não desaparecem quando passam; elas permanecem em nós, guardadas pela memória e integradas à nossa própria história.
Por isso só conseguimos sentir aquilo que, de algum modo, ainda está em nós. A saudade não é apenas a lembrança de algo que ficou para trás, mas a presença interior de algo que marcou a nossa vida.
Certa vez meu pai me corrigiu quando eu falei que AMAVA muito meu avô. Ele me disse: “ele não estar mais entre nós não significa que esse amor acabou, você ainda o ama”.
E ele estava coberto de razão! Não se deixa de amar pela ausência. Não se aquele amor integra quem você é.
Viktor Frankl dizia algo muito bonito sobre isso: o passado é, de certo modo, o lugar mais seguro que existe, porque tudo aquilo que vivemos, amamos e realizamos já está preservado nele e nada pode apagar essas experiências.
Aquilo que foi vivido já foi definitivamente inscrito na realidade da nossa alma. O tempo pode passar, as circunstâncias podem mudar, mas aquilo que vivemos não pode deixar de ter existido. E é justamente por isso que a saudade é possível: porque aquilo que passou no tempo permanece, de alguma forma, dentro de nós.
A saudade não é só “falta”. Ela é quem você É.


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