Riqueza – abundância de bens materiais ou recursos.
Um texto especialmente para a Geração Millennials; importante para a Geração Z; e quase acusativo para a Geração X.
Quando comecei a estudar sobre riqueza, a primeira pergunta que me veio à cabeça foi algo do tipo: “Será que lá nos tempos das cavernas já existia um magnata das pedras? O sujeito que tinha a caverna mais espaçosa, melhor ventilada, perto do rio e ainda com estoque premium de mamute?”
Não. Por um grande período da história da humanidade não se existia o conceito de riqueza.
No tempo das cavernas os homens eram nômades, então a ideia de acúmulo material não fazia muito sentido. Tudo que os grupos detinham tinha que ser transportável, a comida perdia rápido, e tinham poucas ferramentas que, também, quebravam facilmente.
Todo e qualquer “status social” era pautado pelas habilidades da pessoa (força, liderança, rituais, conhecimento) e não existia propriedade privada, as cavernas eram só usadas.
Essa conceituação de riqueza vai surgir lá para 10.000 a.C, com a SEDENTARIZAÇÃO.
A sedentarização foi uma das maiores transformações da história humana, porque a forma de viver mudou completamente. O homem deixou de ser nômade e estabeleceu território fixo, começou a produzir e pensar e se organizar socialmente.
Com a produção, surgiu a possibilidade de acúmulo de alimentos, o que deu origem à ideia de excedente (tenho mais do que preciso). E a partir daí, tudo aquilo que podia ser acumulado passou a ganhar valor.
Do acúmulo valorizado derivou a troca.
Da troca, derivou o poder.
A riqueza não é um conceito essencial à natureza humana. Ela surgiu quando o ser humano parou de andar, começou a estocar e percebeu que quem controla o acúmulo também controla as pessoas.
Já o controle… ah, esse sim me parece ser essencialmente humano.
Com o passar do tempo e o surgimento da Filosofia, a riqueza deixou de ser vista apenas como acúmulo de bens, mas como algo relacionado à ordem social, ou seja, ela não tinha valor apenas pelos bens que a constituíam, mas pelo papel que cumpria na sociedade.
Aristóteles, genial como sempre, surgiu com o conceito da eudaimonia, instituindo o pensamento de que a riqueza só é legítima se servir à vida boa. A riqueza natural é aquela limitada, ou seja, suficiente para se viver bem, e a riqueza antinatural é a artificial, ou seja, dinheiro pelo dinheiro, também conhecida por crematística.
Eudaimonia (grave bem esse nome): é viver e agir bem durante toda a vida, realizando o melhor de si como ser humano (viver de modo virtuoso, racional e pleno).
Crematística: a arte de aquirir riquezas, com o único propósito de acumular bens ilimitadamente, e não de satisfazer suas necessidades.
Mas, tá! Por que esse texto era especialmente para a galera da Geração Millennials, importante para a Geração Z, e levamente acusatória para a Geração X?
Nós consumimos a Helena, sonhamos com a Disney e acompanhamos todas as dancinhas de bom-dia da Virgínia.
Nossos pais (Geração X) nos incentivaram arduamente a “aproveitar a vida e não assumir responsabilidades”.
Aí viramos a geração dos coachs, dos milionários instantâneos, das vidas perfeitamente selecionadas postadas nas redes sociais, dos depressivos, ansiosos e infantilizados (me desculpe. Não fique irritado com minha acidez, eu tenho um ponto).
Descobrimos que a pauta de “encontre seu propósito” é uma máquina multiplicadora de dinheiro fácil.
Existe curso para tudo, até para fazer curso.
Parece que todos sabem a fórmula mágica de fazer o primeiro milhão em 6 meses; que todo mundo se encontrou numa profissão alternativa; que Dubai é logo ali; que avião particular é o novo Audi A3.
Não precisa ser inteligente, nem estudar, nem ter conhecimento (verdadeiro), nem se esforçar, nem assumir responsabilidades, nem trabalhar duro, nem ter planos de longo prazo.
Está tudo muito fácil… a um clique de distância.
Nós vendemos isso para a Geração Z, e eles compraram.
Mas, espera!
Aqui em casa não foi e nem está tudo fácil, a um clique de distância.
Peraí, tem alguma coisa errada.
Eu acordo cedo, me exercito, me alimento bem, estudo, trabalho demais da conta, vou à missa, socializo (tento), ajudo o próximo (muito pouco, não me orgulho em confessar), me dedico, me esforço (muito), há muito mais de 06 meses, e até agora eu não estou milionária e nem encontrei meu propósito.
E agora?
BOOM: Depressão. Ansiedade. Burnout. Mau humor. Rinite. Sinusite. Gastrite. Preguicite. Desistite. Frustratite.
Riqueza.
Eu perguntei se vocês queriam ser ricos e para quê queriam.
As respostas foram: SIM – “para ter mais liberdade”; “dinheiro compra tempo”; “para viajar”; “comprar um apartamento”; “para não me privar da vontade de comprar as coisas”; “desfrutar do conforto e segurança”; “ter tempo de qualidade com a família”; “não me preocupar com as contas”… Você se identifica com alguma?
Todas dignas! Este texto não é para julgar seu desejo de ter dinheiro.
Este texto é para refletirmos juntos sobre o que é riqueza.
Talvez já sejamos ricos, já tenhamos um propósito, mas estamos muito focados no apartamento de 100m² com vista para o parque, ou na próxima viagem para a Europa.
E eu não sei em vocês, mas em mim isso causa uma angústia quase insuportável.
Porque agora eu preciso confessar uma coisa para vocês.
Eu quero ser rica, para ter tempo!
Não pense que é algo nobre, porque eu desejo “só” o tempo. Não. Eu quero o dinheiro mesmo. Aquele que paga meu estilo de vida (morar e comer bem, viajar, carro, segurança, boa educação para os filhos que pretendo ter, e por aí vai) sem que eu tenha que “vender” meu tempo para isso.
Eu queria largar tudo e ir ensinar Filosofia… Porque eu ainda acredito no ser humano e acredito que o conhecimento nos salvará das mazelas da modernidade.
Eu perco o sono às vezes pensando em como isso pagaria minhas contas (cá entre nós, ninguém AINDA está muito interessado em estudar). Porque eu estou matando (ainda mais) o consumismo em mim, mas não cheguei ao ponto de abdicar do conforto (nem sei se é preciso isso).
E lá vem tudo de novo: Depressão. Ansiedade. Burnout. Mau humor. Rinite. Sinusite. Gastrite. Preguicite. Desistite. Frustratite.
Enfim.
Talvez o problema não seja desejar riqueza.
Talvez o problema seja termos desaprendido a perguntar para quê.
Aristóteles estava menos interessado em quanto alguém possuía e mais em como alguém vivia. A riqueza deveria ser um meio, nunca um fim.
Se ela vira o fim, algo desorganiza dentro de nós.
Não sei se já encontrei a forma certa de conciliar tempo, dinheiro, vocação e responsabilidade.
Mas, sei que transformar a vida numa corrida por acúmulo infinito de bens, experiências, status ou validação, não tem me feito viver melhor.
Talvez riqueza seja, antes de tudo, ordem.
Taí, ORDEM…
Num mundo em que habilidades são facilmente simuladas, em que PARECER competente vale mais do que ser, e em que possuir visibilidade pesa mais do que possuir conteúdo, a confusão entre riqueza e valor é inevitável.
ORDEM entre o que desejo, o que posso, o que devo e o que sou.
E isso, infelizmente (ou felizmente), não cabe num curso de 6 meses.


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