Minha relação com meus pais nunca foi racionalizada ou muito menos pensada. Sempre foi biológica, descritiva e instintiva.
Não interprete que foi uma relação ruim, morna, prejudicial, apática, nem nada do tipo. Foi só uma relação que eu nunca parei para refletir sobre. E acredito que assim o seja com a maioria de vocês.
Acontece que a maturidade, especificamente o cenário da vida adulta, nos coloca em certas situações e posições que, em um estado de normalidade, acaba nos fazendo refletir sobre essa relação.
Talvez por perceber certos comportamentos negativos advindos deles, ou repetições desses comportamentos advindos de nós mesmos, talvez por sentir saudade e admiração, ou pior, aversão… Não sei.
Aposto que em determinado momento das nossas vidas, seja ele qual for, acabaremos refletindo sobre como nos relacionamos com os nossos pais (e devemos mesmo fazê-lo).
Enfim, sigamos.
Não é possível expor os limites que permeiam o mandamento de honrar pai e mãe, sem antes contextualizar o surgimento da família e sua finalidade.
Nós somos seres fundamentalmente sociais. Nossa característica relacional se dá principalmente porque nós não nos criamos, mas somos constituídos como uma novidade no ser, ou seja, somos gerados e nascemos vinculados ao amor divino e humano, o que gera, consequentemente, a relação fundante de filiação-paternidade-maternidade.
Buscamos o bem comum, o que nos torna seres altruístas (sim, pasmem!) – uma exemplificação disso é que em 1971 foi publicado um estudo sobre o esqueleto de um homem de Neandertal (datado de 45.000 anos) que era gravemente inábil desde o nascimento e que apresentava sinais de feridas de 40 anos, indicando seu tempo de vida, tempo este que só foi possível porque os outros indivíduos da tribo tomaram conta dele[1] -.
Desenvolvemos linguagem única e exclusivamente para nos comunicarmos entre si; vivemos em comunidade por causa das necessidades da vida, e, segundo Aristóteles, as cidades existem justamente para que vivamos bem e de forma digna.
A família surge exatamente neste contexto. Ela existe porque o ser humano não é autossuficiente, ele precisa se reproduzir, se alimentar e educar os frutos da reprodução. Para Aristóteles, o oikos (casa/lar) é uma unidade básica da polis (cidade) e a família aparece como ordem cotidiana voltada à manutenção da vida e à formação dos indivíduos (ética e moral). Ou seja, a família não é opcional, ela é natural e necessária.
Pois bem.
Por ser uma relação fundante, ela requisita uma responsabilidade ética, ou seja, não se reduz a um dado biológico (só gerar) ou meramente descritivo (só descrever “ele é meu pai”). O que importa é o conteúdo real da relação.
Em uma enquete que realizei no meu Instagram, perguntei aos seguidores se já tiveram ou ainda têm problemas na relação com os pais, ou se mantêm uma boa convivência com eles. Dentro dessa pequena amostra — uma bolha de aproximadamente 300 pessoas —, 79% manifestaram ter enfrentado algum tipo de dificuldade relacional com seus genitores ou tutores.
Outros dois dados significativos que surgiram a partir da enquete foram que 67% dos participantes disseram que já se sentiram injustiçados pelos pais e 85% afirmaram que já se sentiram culpados por dizer “não” a eles.
É possível notar nesta breve e simples enquete que o pilar ético está presente (ainda que inconscientemente) na relação filiação-paternidade-maternidade, existindo no íntimo desses filhos uma noção de gratidão, mas também a de dever moral.
“Honrar teu pai e mãe, para que se prolongue os teus dias na terra…”
O 4º mandamento nem era para ser tão difícil, né! Afinal, nós (meio que) somos biologicamente programados para amar nossos pais, e se amamos, qual a dificuldade de honrá-los?
E foi quando me deparei com esse pensamento que percebi que honrar pai e mãe é um dos mandamentos mais difíceis de se compreender, justamente por existir amor, gratidão e essa noção de dever moral.
Devemos obedecer, respeitar, amar, cuidar…, mas qual o limite disso? Tem limite? Falar “não” é falta de amor ou ingratidão? Não querer/conseguir conviver é falta de cuidado? Discordar ou não admirar é falta de respeito?
Quantos de nós já chegamos no limite nas relações com os nossos pais? Seja por diferenças de personalidade ou ideais, seja por conflitos, vícios, egoísmo, abandono, injustiça, por chantagem emocional.
Quantas vezes já nos faltou admiração e nos culpamos por amarmos menos esses pais? Quantas vezes nos sentimos biológica, afetiva ou financeiramente coibidos a fazer TUDO que eles nos pedem?
No meu processo de conversão (olha eu o citando mais uma vez), fui e sou frequentemente confrontada pela minha relação com meus pais, porque o 4º mandamento martelava minha cabeça, incomodava meu coração e me confundia acerca do meu verdadeiro papel como filha.
Percebeu esta última frase? “Meu verdadeiro papel como filha”.
Antes de falar sobre qualquer limite e/ou obrigação, é preciso se colocar no seu devido lugar de filha(o), porque tenho certeza que, assim como eu, muitos de vocês já assumiram papéis de pais frente aos seus pais. Às vezes por necessidade, às vezes por ímpeto e até mesmo por soberba. Às vezes somos obrigados mesmo a assumir esse papel, às vezes o assumimos só por acharmos que somos melhores ou por querermos controlá-los.
Antes de compreender os limites, este é o primeiro passo: SEJA FILHA(O) DOS SEUS PAIS (e aqui não te ensinarei o que é ser filho).
LIMITES.
Aqui eu também posso discorrer páginas e páginas sobre todos os limites que são impostos pela moral, pela ética, pela reciprocidade e, principalmente, por Deus. Mas o objetivo aqui são textos objetivos.
Obedecer. Respeitar. Cuidar.
Obedecer: enquanto estiver sob o teto deles, enquanto não tiver sua emancipação (adquirida através da maturidade espiritual e pessoa, do casamento, da vocação, da independência financeira e social ou em casos de abuso), e desde que as ordens não vão contra a vontade de Deus.
Respeitar: mesmo depois de emancipado, mesmo com opiniões diferentes. É lembrar que Deus te deu a vida por meio deles, é trabalhar a gratidão (a gratidão está no respeito e não na submissão). É não gritar, não debochar, não desprezar. É ouvir com educação, mesmo sem concordar. É tratar com dignidade, mesmo quando for difícil. Respeito não depende de sentir, é conduta básica de civilidade.
Cuidar: na velhice ou em tempos de fragilidade. Aqui é onde mora aquele dever ético da relação filiação-paternidade-maternidade, ainda que você não tenha sido cuidado, aqui você se faz necessário e presente. A Bíblia chama isso de retribuição (1Tm 5:4). Cuidar é fazer o que precisa ser feito. Este é o mais genuíno ato de amar ao próximo como a ti mesmo.
LIMITES.
Não se curve à chantagem emocional. Gratidão não é dívida vitalícia. Dizer “não” não é desrespeito ou ingratidão. Após a emancipação, seus pais deixam de ter autoridade e passam a ter voz, não comando. Você foi feito à imagem de Deus, não à imagem deles. Honrar não é se anular. Obedecer não é se submeter a abusos. Amar não é aceitar controle. A maturidade cristã sabe separar respeito de obediência cega, cuidado de dependência emocional, presença de sufocamento.
Colocar limites não é romper a honra, é proteger a relação (e vocês).
HONRE-OS.
[1] LOMBO, José Ángel; RUSSO, Francesco. Antropologia filosófica: uma introdução. São Paulo: Cultor de Livros, 2020, p. 249


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